Commit de692d
2025-03-11 14:41:17 Linda Carvalho: -/-| /dev/null .. Cogeração.md | |
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| + | --- |
| + | title: Cogeração |
| + | author: |
| + | - Maria Ana Castanheira |
| + | - Patrícia Félix |
| + | - Linda Carvalho Cosendey |
| + | date: 2025-03-11 |
| + | tags: #utilidades |
| + | --- |
| + | --> |
| + | |
| + | # Cogeração |
| + | |
| + | - **Autor**: |
| + | - Maria Ana Castanheira |
| + | - Patrícia Félix |
| + | - Linda Carvalho Cosendey |
| + | - **Data**: 2025-03-11 |
| + | --- |
| + | |
| + | ## 1. Definição de Cogeração |
| + | |
| + | A cogeração dá-se pela produção de forma simultânea de energia térmica e elétrica a partir |
| + | de um único combustível. Assim, aproveita-se o calor residual de processos termodinâmicos que |
| + | seriam desperdiçados, para processos que podem ou não estar relacionados com o processo |
| + | principal. |
| + | |
| + | Esta técnica gasta cerca de 10 a 30% menos de combustível do que seria necessário para |
| + | produzir a mesma quantidade de energia de forma separada, sendo assim mais favorável ao |
| + | ambiente. Associado a uma melhor eficiência de conversão energética encontram-se ainda |
| + | menores custos associados, e melhores condições para favorecer esta situação. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 1.** Sistema convencional vs sistema de cogeração_ |
| + | |
| + | Fonte: COGEN Portugal [^1]. |
| + | |
| + | |
| + | ## 2. História |
| + | |
| + | A produção de biogás é conhecida há séculos, mas sua utilização como |
| + | fonte de energia ganhou destaque apenas nas últimas décadas. Registros |
| + | indicam que na Índia e na China o biogás já era utilizado para |
| + | saneamento básico e geração de energia muito antes da crise do petróleo. |
| + | No Ocidente, no entanto, só teve sua relevância reconhecida após as |
| + | crises energéticas do século XX, quando fontes alternativas passaram a |
| + | ser mais exploradas [^1]. |
| + | |
| + | Inicialmente, o biogás era visto apenas como um subproduto da |
| + | decomposição anaeróbia de resíduos orgânicos, sendo sua produção |
| + | associada ao tratamento de efluentes. A principal motivação era reduzir |
| + | a carga orgânica desses efluentes, mitigando impactos ambientais. |
| + | Entretanto, com a ratificação do Protocolo de Kyoto e a implementação de |
| + | mecanismos de desenvolvimento limpo (MDL), além do aumento nos custos |
| + | dos combustíveis convencionais, a geração de biogás passou a ser |
| + | reconhecida como uma alternativa energeticamente eficiente e |
| + | ambientalmente viável [^2]. |
| + | |
| + | O desenvolvimento tecnológico permitiu avanços na produção e no |
| + | aproveitamento do biogás, tornando-o uma fonte versátil. Ao longo das |
| + | últimas décadas, consolidou-se como uma solução para reduzir as emissões |
| + | de gases de efeito estufa e promover a transição energética para fontes |
| + | mais sustentáveis [^3]. Sua produção está diretamente alinhada com os |
| + | Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, contribuindo para |
| + | um futuro mais equilibrado ao permitir a gestão adequada de resíduos e a |
| + | eficiência na utilização de recursos naturais [^4]. |
| + | |
| + | Dessa forma, o biogás emerge como uma alternativa promissora, não apenas |
| + | como fonte renovável de energia, mas também como solução ambiental para |
| + | a gestão de resíduos, destacando-se como uma tecnologia chave para um |
| + | desenvolvimento mais sustentável. |
| + | |
| + | |
| + | ## 3. Características |
| + | |
| + | O próprio nome "bio”gás remete à sua origem biológica. Trata-se de um |
| + | gás gerado pela decomposição de matéria orgânica em ambientes sem |
| + | oxigênio, um processo conhecido como digestão anaeróbia. Esse fenômeno |
| + | ocorre naturalmente em locais como pântanos, lagoas, esterqueiras e no |
| + | trato digestivo de animais ruminantes. Durante essa decomposição, a |
| + | matéria orgânica é convertida em um gás composto principalmente por |
| + | metano (CH4) e dióxido de carbono (CO2), além de pequenas quantidades de |
| + | hidrogênio (H2), sulfeto de hidrogênio (H2S), nitrogênio (N2), oxigênio |
| + | (O2), amônia (NH3) e vapor d'água (H2O) [^5]. |
| + | |
| + | A composição exata do biogás depende dos materiais utilizados no |
| + | processo e das condições em que ocorre a fermentação. O teor de metano |
| + | pode variar entre 50% e 75%, sendo esse o principal componente |
| + | responsável pelo poder energético do gás. Já o dióxido de carbono, que |
| + | pode corresponder a até 50% da mistura, não possui propriedades |
| + | combustíveis, e sua remoção melhora a eficiência energética do biogás. |
| + | Por outro lado, o sulfeto de hidrogênio deve ser removido, pois sua |
| + | presença pode ser corrosiva e prejudicial aos equipamentos [^5] [^6]. |
| + | |
| + | A obtenção do biogás pode ser feita a partir de diversas biomassas, como |
| + | resíduos agroindustriais, dejetos de animais, resíduos urbanos e |
| + | subprodutos de processos industriais que envolvem matéria orgânica. Além |
| + | de gerar energia, a digestão anaeróbia contribui para a gestão |
| + | sustentável de resíduos, reduzindo seu acúmulo e minimizando impactos |
| + | ambientais. Outro benefício do processo é a produção de |
| + | biofertilizantes, que são ricos em nutrientes e podem ser aproveitados |
| + | na agricultura [^7]. |
| + | |
| + | A composição do biogás pode ser melhor compreendida por meio da Tabela |
| + | 1, que apresenta as concentrações típicas dos seus principais |
| + | componentes e suas características químicas [^7] [^8]. |
| + | |
| + | _**Tabela 1.** Composição do biogás_ |
| + | |
| + | | Gás | Símbolo | Concentração no biogás (%) | |
| + | | -------- | ----------------- | -------- | |
| + | | Metano | CH4 | 50-80 | |
| + | | Dióxido de carbono | CO2 | 20-40 | |
| + | | Hidrogênio | H2 | 1-3 | |
| + | | Nitrogênio | N2 | 0,5-3 | |
| + | | Gás sulfídrico e outros | H2S . CO . NH3 | 1-5 | |
| + | |
| + | Fonte: Coldebella, 2006 [^7]; Zanette, 2009 [^8]. |
| + | |
| + | |
| + | ## 4. Processos de produção |
| + | |
| + | A degradação microbiológica de resíduos orgânicos em um ambiente sem |
| + | oxigênio molecular resulta na produção de biogás e ocorre em quatro |
| + | fases distintas. Cada fase envolve grupos fisiológicos específicos de |
| + | bactérias do domínio Archaea (anaeróbios). Inicialmente, as bactérias |
| + | fermentativas atuam nas etapas de hidrólise e acidogênese. Em seguida, |
| + | as bactérias acetogênicas são responsáveis pela acetogênese. Por fim, as |
| + | bactérias metanogênicas realizam a metanogênese, resultando na formação |
| + | do biogás [^6]. |
| + | |
| + | A Figura 1 ilustra o esquema geral do processo de produção de biogás, |
| + | que será detalhado a seguir. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 1.** Esquema de produção de biogás_ |
| + | |
| + | Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de: Rocha e Mendes, 2024 [^6]; |
| + | Rohstoffe, 2010 [^5]. |
| + | |
| + | |
| + | ### 4.1 Hidrólise |
| + | |
| + | A etapa de hidrólise é o primeiro estágio da degradação anaeróbia de |
| + | resíduos orgânicos e envolve a quebra de macromoléculas em compostos |
| + | menores e solúveis, facilitando sua absorção pelas bactérias. Nesse |
| + | processo, as bactérias fermentativas hidrolíticas secretam enzimas |
| + | extracelulares, conhecidas como hidrolases, que atuam sobre biopolímeros |
| + | complexos, como polissacarídeos, proteínas, ácidos nucleicos e gorduras. |
| + | Os polissacarídeos são convertidos em açúcares solúveis, como |
| + | monossacarídeos e dissacarídeos; as proteínas são degradadas em |
| + | peptídeos e, posteriormente, em aminoácidos; enquanto os lipídios são |
| + | transformados em ácidos graxos de cadeia longa (C15 a C17) e glicerol |
| + | [^9]. |
| + | |
| + | ### 4.2 Acidogênese |
| + | |
| + | Na fase de acidogênese, as bactérias fermentativas acidogênicas |
| + | convertem os materiais solúveis provenientes da hidrólise em ácidos |
| + | gordos voláteis, como os ácidos acético, propiônico e butírico. Além |
| + | disso, nesse processo ocorrem a produção de dióxido de carbono e |
| + | hidrogênio, bem como a formação de pequenas quantidades de ácido lático |
| + | e álcoois. A composição dos compostos sintetizados nessa etapa varia de |
| + | acordo com a concentração de hidrogênio intermediário presente no meio |
| + | [^5]. |
| + | |
| + | ### 4.3 Acetogênese |
| + | |
| + | A etapa de acetogênese é responsável pela conversão dos compostos |
| + | formados nas fases anteriores em substâncias que possam ser utilizadas |
| + | pelas bactérias metanogênicas. Nessa fase, ocorre predominantemente a |
| + | desidrogenação dos ácidos gordos voláteis, resultando na formação de |
| + | acetato, além da liberação de hidrogênio e dióxido de carbono. Contudo, |
| + | as bactérias acetogênicas são sensíveis a elevadas concentrações de |
| + | hidrogênio, sendo essencial que as bactérias metanogênicas consumam esse |
| + | gás para manter o equilíbrio do processo. Além disso, o hidrogênio e o |
| + | dióxido de carbono gerados podem reagir entre si, originando mais ácido |
| + | acético, que também servirá como substrato para a produção final de |
| + | biogás [^10] [^6]. |
| + | |
| + | ### 4.4 Metanogênese |
| + | |
| + | Na etapa final da produção de biogás, ocorre a formação de metano pelas |
| + | bactérias metanogênicas. Esses microrganismos anaeróbios convertem o |
| + | hidrogênio, o dióxido de carbono e o ácido acético em metano e dióxido |
| + | de carbono. No entanto, são extremamente sensíveis a variações |
| + | ambientais, como temperatura e pH. As bactérias responsáveis pela |
| + | produção de biogás são predominantemente mesofílicas, funcionando bem em |
| + | temperaturas entre 35 e 45ºC. Alterações bruscas na temperatura podem |
| + | comprometer sua sobrevivência, resultando em uma redução significativa |
| + | na produção de biogás [^11]. |
| + | |
| + | |
| + | De forma geral, as quatro fases da decomposição anaeróbia acontecem |
| + | simultaneamente dentro de um sistema de um único estágio. No entanto, |
| + | como cada grupo de bactérias possui condições ambientais específicas, |
| + | como preferências de pH e temperatura, é necessário encontrar um |
| + | equilíbrio adequado na tecnologia utilizada para otimizar o processo e |
| + | garantir sua eficiência [^5]. |
| + | |
| + | Para ilustrar visualmente os conceitos abordados sobre a produção e |
| + | utilização do biogás, recomenda-se assistir o vídeo "A Journey into |
| + | Biogases". O recurso apresenta, de forma objetiva, o processo de geração |
| + | do biogás e algumas de suas aplicações práticas. Ele está disponível em: |
| + | [^12]. |
| + | |
| + | |
| + | ## 5. Aplicações industriais |
| + | |
| + | O biogás possui um significativo potencial energético e pode ser |
| + | utilizado como alternativa a diversas fontes convencionais de energia. A |
| + | eficiência de sua conversão em eletricidade e calor depende da |
| + | composição do biogás, especialmente do teor de metano, que influencia |
| + | diretamente seu poder calorífico. Em condições normais de pressão e |
| + | temperatura, o metano puro possui um poder calorífico inferior (PCI) de |
| + | aproximadamente 9,9 kWh/m³. No entanto, em condições típicas de |
| + | produção, devido à variação na composição do biogás, com teores de |
| + | metano entre 50% e 80%, seu PCI pode oscilar entre 4,95 e 7,92 kWh/m³. |
| + | Isso afeta sua equivalência energética com outros combustíveis e sua |
| + | aplicabilidade em diferentes processos industriais [^13]. |
| + | |
| + | A tabela 2 abaixo apresenta a equivalência energética do biogás em |
| + | relação a diferentes fontes de energia, conforme valores estimados por |
| + | diversos autores. Esses valores indicam a quantidade de biogás |
| + | necessária para fornecer a mesma quantidade de energia que uma unidade |
| + | de cada combustível listado. A interpretação desses dados é essencial |
| + | para avaliar o potencial do biogás como substituto de combustíveis |
| + | convencionais. |
| + | |
| + | _**Tabela 2.** Equivalência energética do biogás comparado a outras |
| + | fontes de energias_ |
| + | |
| + | | Energético |Ferraz (1980)[^1]|Sganzerla (1983)[^18]|Nogueira (1986)[^19]|Santos (2000)[^14]| |
| + | | -------- | ----------------| -------- | -------- | -------- | |
| + | | Gasolina (L) | 0,61 | 0,613 | 0,61 | 0,6 | |
| + | | Querosene (L) | 0,58 | 0,579 | 0,62 | - | |
| + | | Diesel (L) | 0,55 | 0,553 | 0,55 | 0,6 | |
| + | | GLP (kg) | 0,45 | 0,454 | 1,43 | - | |
| + | | Álcool (L) | - | 0,79 | 0,80 | - | |
| + | | Carvão mineral (kg)| - | 0,735 | 0,74 | - | |
| + | | Lenha (kg) | - | 1,538 | 3,5 | 1,6 | |
| + | | Eletricidade (kWh) | 1,43 | 1,428 | - | 6,5 | |
| + | |
| + | Fonte: Muncinelli, 2019 [^13]. |
| + | |
| + | Por exemplo, segundo Ferraz et al, em 1980 [^1], um litro de gasolina |
| + | equivale a aproximadamente 0,61 m³ de biogás, o que significa que essa |
| + | quantidade de biogás seria necessária para gerar a mesma energia contida |
| + | em um litro de gasolina. Para o diesel, os valores são semelhantes, |
| + | variando entre 0,55 e 0,6 m³ de biogás conforme diferentes fontes. Isso |
| + | demonstra que o biogás pode ser uma alternativa viável para a |
| + | substituição desses combustíveis fósseis em aplicações industriais e de |
| + | transporte. |
| + | |
| + | Outro ponto relevante é a equivalência com a eletricidade. Ferraz et al |
| + | [^1] indicam que 1,43 m³ de biogás podem gerar 1 kWh de eletricidade, |
| + | enquanto Santos [^14], em 2000, apresenta um valor consideravelmente |
| + | maior, de 6,5 m³ por kWh. Essa discrepância pode ser atribuída a |
| + | diferenças na eficiência dos sistemas de conversão utilizados nos |
| + | estudos, bem como à variação na composição do biogás, especialmente em |
| + | relação ao teor de metano. |
| + | |
| + | Além disso, a Tabela 2 também compara o biogás com outros combustíveis |
| + | como gás liquefeito de petróleo, querosene, carvão, lenha e álcool, |
| + | reforçando seu potencial como fonte energética versátil. Esses dados são |
| + | fundamentais para embasar a aplicação do biogás em diversas áreas, como |
| + | substituição do diesel e do gás natural veicular em veículos, seu uso no |
| + | lugar do gás liquefeito de petróleo em processos industriais e a geração |
| + | combinada de energia elétrica e térmica. |
| + | |
| + | A seguir, serão exploradas essas aplicações, seus processos necessários |
| + | e os impactos na sustentabilidade, de acordo com Muncinelli (2019) |
| + | [^13]. |
| + | |
| + | ### 5.1 Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao diesel |
| + | |
| + | Após passar por etapas de purificação e compressão, o biogás pode |
| + | representar uma alternativa viável ao óleo diesel, cuja origem está em |
| + | recursos não renováveis. Para que seja utilizado em motores |
| + | originalmente projetados para diesel, o biogás deve passar por um |
| + | processo industrial específico. Esse processo inclui diversas fases, que |
| + | são apresentadas no diagrama da Figura 2 a seguir. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 2.** Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao diesel_ |
| + | |
| + | Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de: Muncinelli, 2019 [^13]. |
| + | |
| + | A substituição do diesel pelo biogás não é completa e exige modificações |
| + | nos motores para que possam operar de forma bicombustível, combinando |
| + | diesel e metano. Nessa configuração, a proporção da mistura pode variar, |
| + | com o diesel representando entre 40% e 100% do total, enquanto o metano |
| + | pode compor de 0% a 60%. No entanto, uma quantidade mínima de diesel |
| + | será sempre necessária para garantir o funcionamento adequado do motor. |
| + | |
| + | Além da economia no consumo de combustível, essa conversão traz |
| + | benefícios ambientais e reduz a dependência do diesel, o que pode ser |
| + | estratégico diante de eventuais oscilações no seu fornecimento. |
| + | |
| + | Segundo a reportagem “Energia limpa: biogás pode ser alternativa ao diesel” disponível em [^15], a utilização do biogás como alternativa ao diesel poderia substituir até 70% do diesel consumido por ônibus e caminhões no Brasil, reduzindo significativamente os custos operacionais com combustível. |
| + | |
| + | ### 5.2 Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao gás |
| + | natural veicular (GNV) |
| + | |
| + | O biogás, após ser devidamente tratado, também pode ser empregado como |
| + | combustível em veículos originalmente abastecidos com gás natural |
| + | veicular (GNV). Para viabilizar essa substituição, é necessário |
| + | submetê-lo a processos semelhantes para obtenção de diesel, conforme |
| + | Figura 3. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 3.** Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao GNV_ |
| + | |
| + | Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de: Muncinelli, 2019 [^13]. |
| + | |
| + | Vale destacar que, diferente da substituição do diesel, a troca do GNV |
| + | pelo metano ocorre de maneira direta e completa, exigindo apenas ajustes |
| + | simples na configuração dos motores para garantir sua compatibilidade e |
| + | desempenho adequado. |
| + | |
| + | ### 5.3 Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao gás liquefeito do petróleo (GLP) |
| + | |
| + | O biogás representa uma alternativa sustentável ao GLP, pois, quando |
| + | tratado para remover impurezas e contendo pelo menos 50% de metano, pode |
| + | ser empregado em sistemas que utilizam GLP com pequenas adaptações nos |
| + | queimadores. O que é indicado na Figura 4. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 4.** Aplicação do biogás como alternativa de substituição ao GLP_ |
| + | |
| + | Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de: Muncinelli, 2019 [^13]. |
| + | |
| + | ### 5.4 Aplicação do biogás como alternativa de geração de energia combinada elétrica e calorífica |
| + | |
| + | Após passar pelo processo de purificação, o biogás pode ser utilizado |
| + | como combustível na geração simultânea de eletricidade e calor em |
| + | motores do ciclo Otto projetados especificamente para sua combustão. |
| + | Esses motogeradores são desenvolvidos para operar com a explosão do |
| + | biogás, garantindo um aproveitamento eficiente dessa fonte de energia. O |
| + | procedimento pode ser observado na Figura 5. |
| + | |
| + |  |
| + | |
| + | _**Figura 5.** Aplicação do biogás como alternativa de geração de |
| + | energia combinada elétrica e calorífica_ |
| + | |
| + | Fonte: Elaborado pelo autor, adaptado de: Muncinelli, 2019 [^13]. |
| + | |
| + | Os sistemas de cogeração, conhecidos como “Combined Heat and Power” |
| + | (CHP), permitem a produção simultânea de eletricidade e calor a partir |
| + | do biogás. Motores do ciclo Otto adaptados para esse combustível possuem |
| + | um gerador que permite converter o torque do motor em energia elétrica |
| + | de forma contínua. Além disso, o calor gerado no processo pode ser |
| + | reaproveitado em aplicações industriais ou na própria planta de biogás, |
| + | otimizando o uso da energia e aumentando a eficiência do sistema. |
| + | |
| + | Nesse sentido, o biogás demonstra ser uma fonte de energia versátil e |
| + | eficiente, com aplicações que vão desde a substituição de combustíveis |
| + | fósseis, como diesel, GNV e GLP, até a geração combinada de eletricidade |
| + | e calor. É importante relembrar que sua viabilidade depende da |
| + | composição e do tratamento adequado, garantindo, assim, sua |
| + | compatibilidade com diferentes sistemas energéticos. Além das aplicações |
| + | abordadas, outras possibilidades podem ser exploradas conforme avanços |
| + | tecnológicos e necessidades industriais, ampliando ainda mais o seu |
| + | impacto na transição para fontes energéticas mais sustentáveis. |
| + | |
| + | |
| + | ## 6. Limitações |
| + | |
| + | Apesar do seu grande potencial energético e da sua contribuição para a |
| + | transição para fontes renováveis, o biogás enfrenta desafios técnicos e |
| + | econômicos que devem ser considerados para que sua implementação seja |
| + | eficaz. A seguir, serão discutidos esses desafios e possíveis soluções |
| + | para viabilizar o aproveitamento sustentável do biogás. |
| + | |
| + | ### Problemas de armazenagem, transporte e utilização |
| + | |
| + | O armazenamento, transporte e utilização do biogás apresentam desafios |
| + | que devem ser geridos para garantir segurança e eficiência. No |
| + | armazenamento, é essencial considerar a presença de H₂S, que é corrosivo |
| + | e tóxico, além de equilibrar volume e pressão para otimizar espaço e |
| + | operação segura [^16]. No transporte, o controle da temperatura é |
| + | crucial para evitar riscos e perdas [^2]. Já na utilização, é necessário |
| + | garantir um fornecimento estável e seguro para aplicações como geração |
| + | de eletricidade, aquecimento e uso como combustível, evitando variações |
| + | de pressão ou composição que possam comprometer o desempenho dos |
| + | sistemas [^5]. |
| + | |
| + | ### Fumos de combustão com poluentes (SOx, NOx e CO) |
| + | |
| + | A combustão do biogás gera poluentes atmosféricos, como óxidos de |
| + | enxofre (SOₓ), óxidos de nitrogênio (NOx) e monóxido de carbono (CO). Os |
| + | SOₓ resultam da presença de sulfeto de hidrogênio no biogás e podem |
| + | contribuir para a chuva ácida. Os NOₓ formam-se a partir do nitrogênio |
| + | do ar durante a combustão em altas temperaturas, sendo responsáveis pelo |
| + | smog fotoquímico. Já o CO é gerado quando a queima do metano é |
| + | incompleta, podendo ser tóxico em concentrações elevadas. Para mitigar |
| + | essas emissões, é essencial purificar o biogás antes da combustão, |
| + | otimizar a eficiência da queima e controlar a relação ar-combustível |
| + | [^2]. |
| + | |
| + | ### Necessidade de tecnologia para limpeza/purificação |
| + | |
| + | A purificação do biogás é um requisito essencial para viabilizar seu uso |
| + | eficiente e seguro pelos consumidores. Como sua composição varia |
| + | conforme a matéria-prima utilizada e o processo de produção adotado, é |
| + | necessário empregar tecnologias de limpeza para remover impurezas e |
| + | componentes indesejáveis. Embora existam métodos físico-químicos |
| + | consolidados para esse fim, a otimização desses processos continua sendo |
| + | um desafio na cadeia de suprimento do biogás, reforçando a necessidade |
| + | de aprimoramento tecnológico para garantir um combustível de qualidade |
| + | [^3]. |
| + | |
| + | ### Elevado investimento econômico |
| + | |
| + | A geração de biogás requer um investimento inicial elevado, |
| + | principalmente devido ao alto custo dos equipamentos e da infraestrutura |
| + | necessária para sua produção [^17]. Além disso, os custos operacionais |
| + | também são significativos, abrangendo a manutenção dos sistemas, a |
| + | purificação do gás e a sua distribuição. Esses custos devem ser |
| + | compensados por receitas adequadas, o que torna essencial um ambiente |
| + | regulatório favorável, com políticas e incentivos que garantam a |
| + | viabilidade econômica do setor [^3]. |
| + | |
| + | ### Riscos de explosão quando misturado com ar/oxigênio |
| + | |
| + | A introdução controlada de pequenas quantidades de oxigênio (2-6%) no |
| + | sistema de biogás, utilizando um compressor, é uma técnica eficaz para |
| + | reduzir a concentração de sulfeto de hidrogênio. Esse processo resulta |
| + | na formação de enxofre e água, permitindo uma purificação mais eficiente |
| + | do biogás sem necessidade de produtos químicos ou equipamentos |
| + | complexos, além de ser uma solução de baixo custo. No entanto, é |
| + | fundamental monitorar a quantidade de ar adicionada, pois o biogás pode |
| + | se tornar explosivo quando a mistura atinge uma faixa de 6-12%, |
| + | dependendo do teor de metano presente. Para evitar riscos, é recomendado |
| + | manter a concentração de metano fora da faixa de 5-15% (em volume) e a |
| + | concentração de oxigênio abaixo de 15% [^6]. |
| + | |
| + | |
| + | ## 7. Referências |
| + | |
| + | [^1]: **COGEN Portugal.** [_Eficiência Energética._](https://www.cogenportugal.com/eficiencia-energetica/) |
| + | |
| + | [^3]: **DE SOUZA, José.** [_Os desafios do setor do biogás e a sua importância para o meio ambiente, a economia e a sociedade._](https://www.researchgate.net/profile/Jose-Souza-8/publication/358841692_Os_desafios_do_setor_do_biogas_e_a_sua_importancia_para_o_meio_ambiente_a_economia_e_a_sociedade/links/63173eee61e4553b956d5955/Os-desafios-do-setor-do-biogas-e-a-sua-importancia-para-o-meio-ambiente-a-economia-e-a-sociedade.pdf) Sociedade, Tecnologia e meio ambiente: avanços, retrocessos e novas perspectivas - volume 2., Editora Científica Digital, 2022. p. 454-465. |
| + | |
| + | [^4]: **FERREIRA, G. L.; MASETTO ANTUNES, S. R.; FERREIRA DE SOUZA, E. C.** [_Biogás: análise dos pontos positivos e negativos e sua contribuição para atingir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS)._](https://sbpe.org.br/index.php/rbe/article/view/832/577) Revista Brasileira de Energia, 2024, 29.4. |
| + | |
| + | [^5]: **ROHSTOFFE, F. N.** [_Guia prático do biogás: geração e utilização._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://antigo.mdr.gov.br/images/stories/ArquivosSNSA/probiogas/guia-pratico-do-biogas.pdf) Ministério da Nutrição, Agricultura e Defesa do Consumidor da Alemanha, 2010, 30-31. |
| + | |
| + | [^6]: **ROCHA, Jorge; MENDES, Joana.** _Biogás._ Universidade de Coimbra. 2024. [Apresentação para aula de Energia e Biocombustíveis.](https://drive.google.com/file/d/1CyIECyHjJKyvOb7pEEwupXGya5XUs9CA/view?usp=drive_link) 33 slides. Acesso em: 21 fev. 2025. |
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| + | [^7]: **COLDEBELLA, A.** [_Viabilidade do uso do biogás da bovinocultura e suinocultura para geração de energia elétrica e irrigação em propriedades rurais._](https://tede.unioeste.br/handle/tede/2841) Dissertação (Mestrado em Engenharia Agrícola) - Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel, 2006. |
| + | [^8]: **ZANETTE, A. L.** [_Potencial de aproveitamento energético do biogás no Brasil._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.osti.gov/etdeweb/servlets/purl/21429297) Dissertação (Mestrado em Planejamento Energético) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. |
| + | |
| + | [^9]: **MAGALHÃES, Geísa Vieira Vasconcelos.** [_Avaliação da biodigestão anaeróbia de resíduos orgânicos: ensaios de potencial bioquímico de metano (BMP) e projeto piloto de um biodigestor em escala real._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://repositorio.ufc.br/bitstream/riufc/34759/1/2018_tese_gvvmagalh%c3%a3es.pdf) Dissertação Pós Graduação em Engenharia Civil - Universidade Federal do Ceará, 2018. |
| + | |
| + | [^10]: **KARLSSON, Tommy, et al.** [_Manual Básico de Biogás._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.univates.br/editora-univates/media/publicacoes/71/pdf_71.pdf) Editora Univates - 1° edição, 2014. |
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| + | [^11]: **PRATI, Lisandro.** [_Geração de energia elétrica a partir do biogás gerado por biodigestores._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.eletrica.ufpr.br/p/arquivostccs/148.pdf) Universidade Federal do Paraná - Curitiba, 2010. |
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| + | [^12]: **A Journey into Biogases.** [_YouTube, canal EBA European Biogas Association, 2024._](https://www.youtube.com/watch?v=oXtdnbeyPJE) Acesso em: 21 fev. 2025. |
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| + | [^13]: **MUNCINELLI, Gianfranco.** [_Substituição do diesel por biogás - Análise de viabilidade da aplicação de energia._](chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://www.paranacooperativo.coop.br/images/unidades/pr/comunicacao/2019/revista_tecnico_cientifico/rev_N20_tecnico_cientifico.pdf) Paraná Cooperativo - Desenvolvimento econômico e social, 2019. |
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| + | [^14]: **SANTOS, P.** [_Guia técnico de biogás._](https://biblioteca.sgeconomia.gov.pt/cgi-bin/koha/opac-detail.pl?biblionumber=22269) Portugal: Centro para a Conservação de Energia, 2000. |
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| + | [^15]: **Energia limpa: biogás pode ser alternativa ao diesel.** [_Youtube, canal TV Brasil, 2022._](https://www.youtube.com/watch?v=ImgDuQjEjxY) Acesso em: 23 fev. 2025. |
| + | |
| + | [^16]: **COELHO, Suani Teixeira, et al.** [_A conversão da fonte renovável biogás em energia._](https://www.researchgate.net/publication/228452829_A_conversao_da_fonte_renovavel_biogas_em_energia) Congresso Brasileiro de Planejamento Energético, 2006. |
| + | |
| + | [^17]: **MOÇO, Eunice Alexandra dos Santos.** [_Projeto de uma unidade produtora de biogás._](https://www.researchgate.net/profile/Suani-Coelho/publication/228452829_A_conversao_da_fonte_renovavel_biogas_em_energia/links/54d4bfdf0cf2970e4e639342/A-conversao-da-fonte-renovavel-biogas-em-energia.pdf) Dissertação - Instituto Politécnico de Tomar, 2012. |
| + | |
| + | [^18]: **SGANZERLA, E.** _Biodigestor: uma solução._ Porto Alegre: Agropecuária, 1983. |
| + | |
| + | [^19]: **NOGUEIRA, L. A. H.** _Biodigestão: A alternativa energética._ São Paulo: Nobel, 1986. |
